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Famílias passam Natal sem água em Rio Acima – Moradores suspeitam de boicote

Há três semanas, moradores de alguns bairros na cidade de Rio Acima  convivem com um drama incomum para quem vive na Região Metropolitana de Belo Horizonte: a falta de abastecimento de água.

Conhecida como a cidade das águas, o município enfrenta escassez justamente desse recurso que, apesar de tê-lo tornado famoso e destino turístico de milhares de pessoas, não é capaz de chegar às torneiras de centenas de famílias rio-acimenses.

Veja os vídeos que os moradores enviaram ao Jornal Minas

A falha no abastecimento atinge bairros como Vila Duarte que, mesmo tendo sido beneficiado por obras recentes que prometiam resolver o problema, como a construção de reservatórios d’água, ainda não teve solução. A moradora Aparecida Rodrigues diz não ter água sequer para preparar a casa para as festividades de fim de ano “já é véspera de Natal e como vou fazer faxina e colocar a roupa pra lavar? Não vou fazer aglomeração, mas pelo menos, um almoço”, explica

Aparecida Rodrigues, diarista, moradora do Bairro Vila Duarte

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Tanque com roupas sujas, baldes com água doada de vizinhos tornou-se um cenário comum na vizinhança que não sabe mais a quem recorrer. Assim como os outros moradores, Aparecida reclama pelas redes sociais e também liga diariamente para a prefeitura, mas recebe apenas promessas. “Estou até chata de tanto ligar e eles não dão o parecer. Conversei com a prefeita e ela disse que era uma peça da bomba que queimou, já tinha comprado e ontem resolveria o problema, mas nada foi feito até agora”, lamenta.

A dona de casa Aline Braga, tem de buscar água em baldes para garantir o mínimo de higiene e o preparo de alimento para os três filhos. “É revoltante o que estão fazendo com a gente. Estou pegando com a vizinha da outra rua pra ter em casa. Senão, não sei o que seria da gente. Nem o caminhão pipa está rodando. Pelo jeito não vão resolver”, conta.

Aline, que já testou positivo para a Covid-19, também ressalta a gravidade da escassez em tempos de pandemia, na qual a higienização constante das mãos é necessária pra evitar o risco de contágio. “A população não consegue nem se prevenir em relação a isso”, explica.

Aline Braga, dona de casa, moradora do Bairro Vila Duarte

 

A cidade de Rio Acima não tem convênio com concessionárias de fornecimento de água e, o abastecimento municipal é realizado pela própria Administração. A captação e a distribuição são gratuitas para a população que não paga e também não possui limite de consumo. O que poderia ser vantagem, para Aline se tornou desvantagem, pois ela acredita que justamente a gratuidade é que permite o descaso no fornecimento. “Estamos cansados de sofrer com isso. Às vezes, acredito que seria melhor sermos tarifados, do que não pagarmos a taxa, mas também não termos acesso”, diz.

Moradores utilizam balde para buscar água em Rio Acima

 

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Para outros moradores, não é apenas a incapacidade técnica e o descaso público os principais motivos pela falha no sistema de abastecimento. O estudante de Comunicação, Douglas Gomes, morador do bairro Centro, aponta sabotagem política e a falta de consciência durante o consumo, como fatores que também agravam o sofrimento dos moradores. “Eu sou eletricista. Fui ajudar no reparo de algumas bombas da cidade e percebemos que teve interferência externa. O pessoal, principalmente ex-funcionários, está boicotando. Eles desligam o disjuntor ou outras ações para faltar água, o que pode repercutir em relação à gestão”, aponta.

Douglas Gomes – Estudante de Comunicação, bairro Centro

 

Outra questão fundamental envolve a conscientização social. “O fato de Rio Acima não ter tarifa ou hidrômetro provoca muito desperdício, principalmente, na parte baixa da cidade o que, às vezes, acarreta falta nos outros bairros”, conta. Essa questão também é apoiada por Aline que já observou a dificuldade que algumas pessoas têm em praticar o racionamento. “Quando eu saia pra trabalhar, todo dia eu via gente no Centro lavando asfalto, carro e jogando água fora”, diz.

Seja incapacidade técnica, descaso público, falta de segurança em relação ao funcionamento do sistema, desperdício ou aumento populacional, os moradores relatam conviver há anos com o problema que tem se agravado nos últimos tempos. “Tem 30 anos que moro aqui, e costumava faltar água por dois ou três dias. Porém, dessa vez, estamos há três semanas. Sempre que entram novos políticos, dizem que não tem verba ou que tem que trocar tudo”, diz Aline. Independente da origem do problema, para Douglas, a única solução seria a privatização e, para os outros moradores, vontade política.

A redação do Jornal Minas entrou em contato com a prefeitura e não obteve resposta em relação aos problemas relatados.

Por Ana Carina Rodrigues

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