30/mar

Polêmica aponta falha no critério de vacinação em Nova Lima

Moradores de Nova Lima dividiram o sentimento de alegria com o de indignação neste sábado (27). O município realizou ação de vacinação drive-thru contra a COVID-19 destinada a profissionais de saúde que atuam no município (1ª dose), idosos entre 73 e 74 anos (1ª dose) e a partir de 80 anos (2ª dose).

O que era para ser apenas comemoração, se transformou em denúncias nas redes sociais, de pessoas que estariam “furando fila” para receber o imunizante.

A polêmica foi em torno das 500 doses que a Administração Municipal disponibilizou para os profissionais da saúde. De acordo com as postagens, dentro desse público, estariam pessoas formadas na área exigida, porém com ocupações diferentes ou inativas atualmente. Como exemplos, foram citados profissionais que nunca trabalharam, biomédicos que atuam com massagem redutora, odontólogos ligados à estética, dentre outros.

A professora Roberta Zanon, que acompanhou esses relatos, é uma das nova-limenses que questiona quais critérios a Secretaria de Saúde do município usou para comprovar o exercício da função. Diante dessas manifestações, ela pergunta: “será que a auto declaração é considerada comprovação de vínculo empregatício”?

Assim como em Nova Lima, por todo país tem surgido denúncias de trabalhadores da área de saúde, que não atuam na função, mas se aproveitam desse privilégio em detrimento ao grupo de risco.

Para evitar situações como essas, o Plano Nacional de Imunização do Governo (PNI) exige a comprovação da vinculação ativa da categoria, por meio de contracheque, carteira de trabalho ou Declaração de Imposto de Renda com a identificação da ocupação principal declarada.

Apesar das delações, a Prefeitura afirmou em nota, que “todos os profissionais vacinados tiveram seu nome verificado de acordo com o tipo de estabelecimento com o qual têm vínculo”.

Vacinação de acupunturista provoca indignação

Dentre as denúncias, a que viralizou, foi a da empresária Janaína Perez que, após publicar um post comemorando o recebimento da vacina, foi questionada se estaria dentro do grupo prioritário. O fato gerou ainda mais especulação, devido a empresária ser membro de família tradicional nova-limense, amiga do prefeito João Marcelo e proprietária de um imóvel que serviu de comitê para a campanha do chefe do Executivo.

Após a empresária declarar ser acupunturista, a população questionou a prioridade da função e se ela realmente a exerce, já que sempre esteve ligada ao ramo empresarial e cargos públicos.

Para o Jornal Minas, Janaína disse que, desde 2015, atua na área e é formada em Acupuntura pela Escola Brasileira de Medicina Chinesa – EBRAMEC. Além disso, declarou possuir extensão do curso na International Education College Shandong University of TCM. Sobre a comprovação do vículo ativo, ela afirmou que “todos os documentos exigidos” foram encaminhados.

 

Vídeo divulgado no instagram da acupunturista

Quanto à dúvida se acupuntura seria ou não considerada como atendimento de saúde, a Prefeitura de Nova Lima informou que a atividade é reconhecida pelo Ministério da Saúde, “portanto, enquadrada no Ofício 57/2021/SVS/MS”.

Mesmo sendo profissional de saúde, seria prioridade nesse momento?

O PNI concede ao município autonomia para decidir como serão distribuídas as doses, com base nas especificidades e peculiaridades regionais. Em nota, a Prefeitura informou que imunizou todos os profissionais da linha de frente e, na ação de sábado, os contemplados foram os “da rede suplementar”. No entanto, a ação permitiu que, especialidades não consideradas de risco ou primordial à saúde, como o caso da Acupuntura ou profissionais com atuações na área estética, fossem imunizadas.

De acordo com Roberta Zanon, “o PNI é inespecífico ao tratar quem deve ser considerado trabalhador da saúde, e deixa brechas para que o município contemple os profissionais que julgar prioridade mais conveniente no momento”, explica.

A professora faz coro à parcela da população que concorda que somente profissionais da linha de frente deveriam receber a vacinação nesse período. “Na minha opinião nem tudo que é legal, é moral e, por isso, deveríamos priorizar quem realmente tem maior risco de contrair a doença”, diz.

A prefeitura de Belo Horizonte, por exemplo, vacinou no mesmo dia, apenas profissionais de saúde cadastrados acima de 60 anos, ao contrário de Nova Lima que ampliou para qualquer idade. Com essa estratégia, a capital avança no cumprimento da meta de vacinação dos idosos à frente do nosso município. Enquanto que na mesma data os habitantes de 69 anos foram beneficiados, em Nova Lima, a faixa ficou entre 73 e 74 para a primeira dose. Hoje (30), o município começou a aplicação em idosos acima de 70, atrás de Raposos que começa amanhã com as idades de 65 e 67, e Belo Horizonte, que já estende a imunização para garis e policiais militares.

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Análise política

Segundo o consultor político Thiago Carvalho, “a Prefeitura de Nova Lima errou no critério de segmentação dos grupos prioritários e pessoas com direito à vacinação”. Ele argumenta que destinar 500 doses para profissionais de saúde de atividades suplementares nesse momento, deu margem para que especialistas, fora do grupo de risco, fossem imunizados antes do público prioritário. Seguindo essa linha, categorias podem e, vão, se beneficiar desta brecha do programa que dá autonomia para o município escolher “quem vacinar”.

O consultor político explica que é necessário discernimento ao elencar o que é preferencial. “Será que um acupunturista ou dentista que aplica botox, que está na faixa de 40 anos, tem precedência em relação a um transplantado ou uma pessoa de 60 ou 70 anos?” questiona. “Estamos hoje com 69 pessoas internadas, comércios fechados, atraso no auxílio e problemas com a distribuição de cestas básicas. A lua de mel eleitoral tem data para terminar e, próximo a 100 dias de governo, essa é mais uma frustração para o nova-limense”, conclui.

Ainda de acordo com o consultor, “o desgaste político já está feito, pois vemos claramente a desconfiança dos nova-limenses com a lisura do processo, ao especularem sobre o favorecimento de pessoas ligadas ao poder público, diz.

O grito nas redes sociais tem uma origem. Essa descrença é o reflexo de uma grande ferida na população nova-limense: a exclusão dos “Silvas”, em uma cidade que  sempre entrelaçou política e sobrenomes tradicionais.

Por Ana Carina

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